Contar-te longamente as
perigosas
coisas do mar. Contar-te
o amor ardente
e as ilhas que só há no
verbo amar.
Contar-te longamente
longamente.
Amor ardente. Amor
ardente. E mar.
Contar-te longamente as
misteriosas
maravilhas do verbo
navegar.
E mar. Amar: as coisas
perigosas.
Contar-te longamente que
já foi
num tempo doce coisa
amar. E mar.
Contar-te longamente
como doi
desembarcar nas ilhas
misteriosas.
Contar-te o mar ardente e
o verbo amar.
E longamente as coisas
perigosas.
Manuel Alegre
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pessoas
Ternura
Eu te peço perdão por te
amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção
nos teus ouvidos
Das horas que passei à
sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o
perfume dos sorrisos
Das noites que vivi
acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos
eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam
melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te
deixo
Não traz o exaspero das
lágrimas
nem a fascinação das
promessas
Nem as misteriosas
palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma
unção,
um transbordamento de
carícias
E só te pede que te
repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos
cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.
Vinícius de Moraes
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O medo do Amor
Medo de amar? Parece
absurdo, com tantos
outros medos que temos
que enfrentar: medo da
violência, medo da
inadimplência, e a não
menos temida solidão,
que é o que nos faz
buscar relacionamentos.
Mas absurdo ou não, o
medo de amar se instala
entre as nossas vértebras
e a gente sabe por quê.
O amor, tão nobre, tão
denso, tão intenso, acaba.
Rasga a gente por dentro,
faz um corte profundo
que vai do peito até a
virilha, o amor se encerra
bruscamente porque de
repente uma terceira
pessoa surgiu ou
simplesmente porque não
há mais interesse ou
atração, sei lá, vá saber o
que interrompe um
sentimento, é mistério
indecifrável. Mas o amor
termina, mal-agradecido,
termina, e termina só de
um lado, nunca se
encerra em dois corações
ao mesmo tempo,
desacelera um antes do
outro, e vai um pouco de
dor pra cada canto. Dói
em quem tomou a
iniciativa de romper,
porque romper não é
fácil, quebrar rotinas é
sempre traumático. Além
do amor existe a amizade
que permanece e a
presença com que se
acostuma, romper um
amor não é bobagem, é
fato de grande
responsabilidade, é uma
ferida que se abre no
corpo do outro, no afeto
do outro, e em si próprio,
ainda que com menos
gravidade.
E ter o amor rejeitado,
nem se fala, é fratura
exposta, definhamos em
público, encolhemos a
alma, quase desejamos
uma violência qualquer
vinda da rua para
esquecermos dessa
violência vinda do tempo
gasto e vivido, esse
assalto em que nos
roubaram tudo, o amor e
o que vem com ele,
confiança e estabilidade.
Sem o amor, nada resta,
a crença se desfaz, o
romantismo perde o
sentido, músicas idiotas
nos fazem chorar dentro
do carro.
Passa a dor do amor,
vem a trégua, o coração
limpo de novo, os olhos
novamente secos, a boca
vazia. Nada de bom está
acontecendo, mas
também nada de ruim.
Um novo amor? Nem
pensar. Medo,
respondemos.
Que corajosos somos
nós, que apesar de um
medo tão justificado,
amamos outra vez e
todas as vezes que o
amor nos chama,
fingindo um pouco de
resistência mas sabendo
que para sempre é
impossível recusá-lo.
Martha Medeiros
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pessoas
Amor em paz
Eu amei
Eu amei, ai de mim, muito
mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar
Foi então
Que da minha infinita
tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você a razão
de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa
mais triste
Quando se desfaz
Vinícius de Moraes
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